quinta-feira, 10 de setembro de 2009

A liberdade do liberalismo


No dia 5 de Setembro de 2009 saiu no i um artigo de João Carlos Espada (JCE) intitulado "Ordem social: livre ou comandada". JCE é um politólogo deslumbrado pela Inglaterra. Creio que a sua anglofilia serôdia resulta da (sua, também) animosidade britânica às revoluções. Porque os ingleses sempre preferiram progressos políticos moderados, com soluções locais - assentes no compromisso entre tradição e mudança, cujo diálogo é "ditado pelas conveniências internas de quem vive e conhece as circunstâncias locais - não é ditado por planificadores externos, ou por visões generalistas acerca de um futuro radioso", segundo o artigo.
Para os ingleses (e JCE) a revolução terá que ser sempre uma mudança dirigida centralmente, um plano central. É uma pena que estes eminentes pensadores não se lembrem que as revoluções possam ser locais, também ditadas pelas conveniências internas de quem vive e conhece as circunstâncias locais.
Depois, JCE continua a discorrer sobre a liberdade, de novo enfatizando as virtudes da cultura política inglesa: liberdade como ausência de coerção intencional por terceiros (Isaiah Berlin). Portanto, live and let live. Ou seja, viva o liberalismo, segundo a fórmula típica de Friedrich Hayek em Road to Serfdom. Como é o dinheiro que dá liberdade de escolha somos nós quem tem que resolver os nossos problemas económicos, porque se houver um planeamento económico centralizado (os ditos terceiros contra a liberdade), haverá a regulação de quase tudo na nossa vida, num controlo consciente e dirigido. Ou seja, se não há liberdade económica não há liberdade de escolha.
O que JCE se esquece (e todos os pregadores do neoliberalismo) é que grande parte da população tem tão pouco, que nunca terá então essa liberdade económica, pelo que terá que delegar nos outros (os que têm muito, portanto com mais liberdade/poder económicos) o seu poder mais nobre, o de escolher livremente. Portanto, nessa sociedade liberal tão elogiada por alguns, ganha-se a liberdade de ter preocupações económicas, e, a quem pouco tem, não lhe é retirada a necessidade económica, apenas o poder de escolha; e os capitalistas podem ainda afirmar que os pobres têm sorte, porque não têm o risco e a responsabilidade inerentes ao direito de escolher livremente (entre jogar na bolsa ou no casino, por exemplo). Como eu gosto do liberalismo!

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