
Herzen dizia que os participantes dos kruzhki estavam ligados por uma religião comum, uma linguagem comum e, mais que tudo, um ódio comum - à situação vigente e imposta pelo regime czarista. O objectivo destas mini-repúblicas era disseminar informação e opiniões que fossem capazes de formar e sustentar um público educado e emancipado, capaz de gerar um progresso económico e social, independentemente do quanto obscurantista era ou não o regime do czar. É destes kruzhki semi-clandestinos (porque o czar Nicolau I conhecia-os, permitia-os e até aprendeu algo com eles para as suas tímidas políticas reformistas) que nascerá o caldo intelectual russo das gerações vindouras - gerações prontas a sonhar um futuro utópico ou distópico, mas pelo menos conscientes do facto da sua capacidade de sonhar.
Escolhi deliberadamente o mundo intelectual russo do século XIX como plataforma figurada de discussão para este blogue. A Rússia estava destinada a ser a terra de eleição para a utopia, um cadinho de utopias, o único laboratório para uma utopia estatizante à escala supracontinental, cujo falhanço foi uma tragédia humana. Mas pelo menos, a sua elite intelectual fez uma busca desesperada e inspirada desse conceito aglutinante que é verdade-justiça-aquilo que está certo-comportamento consciente e correcto, e que a língua russa resume numa só palavra: pravda, que é também , a sabedoria colectiva de uma comunidade, acumulada ao longo de gerações.
Espero que neste blogue se faça também essa demanda inspirada, para que a crispação clandestina não morra como costuma morrer a culpa- solteira. Porque, ambas, sob o jugo da clandestinidade, irão para o abismo de mãos dadas.
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