
Acabei de ler este grande livro. Há muito que procurava a edição original, em inglês, mas está indisponível, pelo que não resisti e optei pela edição francesa. É um excelente documento, e único no género, sobre a falsa naturalidade de uma sociedade de mercado, ideia que é uma premissa básica do liberalismo económico. O autor, que alia um conhecimento inexcedível em economia com um rigor antropológico notável, mina qualquer veleidade no sentido de defender a orientação para o ganho e para o lucro como uma característica transversal às sociedades humanas - e exemplifica diversas civilizações que, ao longo da história, tiveram como móbil a redistribuição e a reciprocidade. Para o autor, a história do liberalismo, que começa nos primórdios da revolução industrial na Inglaterra, é uma história de tensão utópica, com a separação progressiva e pouco pacífica das esferas económica e política. A transformação do trabalho, da propriedade e da moeda em mercadorias, preconizada pela utopia de um mercado autoregulado levou a uma corrente proteccionista (política), que se desenvolveu ao longo do século XIX, paralela à corrente do laissez-faire(económica), de modo a contrariar a destruição da substância social humana efectuada pela construção de uma sociedade de mercado. Segundo Polanyi, é esta onda proteccionista que vai levar países como a Alemanha, a formar uma unidade nacional e monetária indissociável. Havia que proteger a terra, o trabalho e a moeda, como interesses colectivos, e foi esta política de isolamento e de autarcia pura que ditou o fim do liberalismo económico, concatenada com a inoperância da representatividade democrática. Quando se deu a ruptura, ela deu-se de forma brutal. Se da morte do liberalismo económico, durante os anos de 1929-1945, nasceram monstros ideológicos como o nazismo ou o estalinismo, surge a pergunta: o que nascerá do neoliberalismo?
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