segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Cavaquismo: a nova filosofia oriental


No dia 26/10/10 assistiu-se a uma peça de teatro inaudita na vida política portuguesa. Após uma negociação encomendada, por magistério presidencial, de forma comprometida com o timing político, para que não parecesse conformismo com a circunstância, surge o anúncio da candidatura presidencial, por arrastamento do facto de, agora, a negociação já parecer encaminhada. Eu, que pensava que só as filosofias orientais como o taoísmo, budismo, xintoísmo, etc, é que conseguiam ultrapassar o dilema actor/espectador da condição humana, pelos vistos enganei-me. Cavaco Silva consegue ser actor e espectador numa encenação espantosa: cúmplice do actual estado de coisas, não se inibe de vaiar o espectáculo degradante da política portuguesa, ainda que o tenha permitido, já que qualquer presidente decente teria exigido um acordo pós-eleitoral, para evitar um governo minoritário numa altura delicada como esta. Cavaco constrói o descalabro político, mantém-se imaculado na sua cadeira institucional, surge como o sacerdote virtuoso acima de qualquer suspeita, sobrepõe a sua agenda messiânica à agenda desastrosa do país, numa manipulação grotesca. Se a condição humana é trágica na dicotomia de sermos actores e espectadores na aventura da nossa existência, creio que o cavaquismo surge como uma promessa religiosa para aplacarmos os deuses e, quem sabe, salvarmos as nossas almas penadas de um inferno pior que Portugal.

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