
Tudo estava em jogo em 1917, em plena primeira guerra mundial. Por toda a Europa sopravam ventos de revolução, em especial a partir da Rússia, em Fevereiro. As classes dirigentes, desconfiadas e com medo do fim do tecido social, não conseguiam explicar a guerra aos seus cidadãos, nem com o mais abrangente discurso patriótico ou chauvinista. A economia de guerra, com a diminuição do poder de compra resultante, assim como o esvaziamento da classe média, levavam à desconfiança entre os cidadãos e as classes governantes e entre estas e os soldados nas respectivas frentes de combate.
Havia o medo de que greves gigantes levassem à paralisação em França e Inglaterra, e que isto pusesse em causa o esforço de guerra para impedir o culminar do imperialismo alemão. Então, aquando da revolução de Fevereiro na Rússia, os socialistas russos tentam propôr uma paz "sem anexações ou contribuições", numa visão mais internacionalista(desprezando as visões imperialistas do exército czarista). Surge a dúvida, entre os socialistas europeus e não só, de que tipo de paz se poderia atingir na Europa. Claro que para a Alemanha, esta seria a melhor hipótese porque seria a que menos mitigaria o seu imperialismo. Seria a paz revolucionária, que permitiria o prosseguimento da revolução na Rússia após um armistício.
Woodrow Wilson opunha-se vigorosamente a estas concepções russas de paz: impunha-se uma paz vitoriosa que fizesse frente ao imperialismo alemão.
É aqui que começa a colagem dos socialistas alemães, por proximidade ideológica com os russos, a uma paz sem proveito para a Alemanha: quando o armistício é assinado em Novembro de 1918, há o sentimento de traição, que Hitler mais tarde irá explorar. Começam então as dúvidas na Alemanha, e a busca de uma paz de compromisso.
Assim como em França, havia o medo de que da paz revolucionária, sem conquistas, nascesse a revolução, devido ao descontentamento geral por uma guerra fraudulenta, sem contrapartidas. Claro que isto foi a forma de as forças conservadoras se manterem no poder, a qualquer preço, alertando para o perigo do pacifismo internacionalista. Em Itália, foi após o desastre militar de Caporetto e o perigo de invasão pelas tropas austro-alemãs que se criou o sentimento nacional, do qual os fascistas nascerão um tempo depois.
Após a revolução russa, os dirigentes mundiais temem o contágio do fervor revolucionário vindo da Rússia, e que o pacifismo internacionalista deite tudo a perder na Guerra.
A partir de 1917 tem-se então a consumação de uma sociedade nova na Rússia, que já não reconhecia a autoridade do sistema social herdado do mundo pré-1914: a ditadura do proletariado trazia o embrião de uma nova ordem política, económica e social.
A paz de Brest-Litovsk vem da percepção de Lenine que uma revolução rodeada por exércitos inimigos não seria viável: o processo revolucionário exigia o fim da guerra numa paz democrática e uma revolução generalizada do proletariado europeu. Lenine sabia, no entanto, que Inglaterra, França, Alemanha e Itália nunca aceitariam uma paz sem conquistas. Mesmo assim, propunha uma paz assente no direito de os povos disporem de si mesmos (o que seria dúbio na futura URSS).
Lenine queria forçar uma paz com a Alemanha e a Áustria, mas assim reforçaria o imperialismo alemão, tornando inviável uma Alemanha revolucionária. Devido à exigência militar dos Aliados de manter activa a frente leste, o bolchevismo começa a ser encarado como um problema e o combate à fortaleza do proletariado, por aqueles, como legítimo. Aqui começa o apoio dos aliados ao exército branco contra o exército vermelho, e começa também a noção de que só uma Alemanha forte poderá ser um baluarte contra o bolchevismo. Portanto, era necessário limitar o seu imperialismo militarista, mas não destruir o país, porque uma Alemanha sucumbida seria uma presa fácil do germe revolucionário.
Iniciou-se assim um combate aos bolcheviques, nas entrelinhas, e dissociado do combate às Potências centrais, impregnado de carácter político. Antes de o conflito de 1914-1918 estar terminado e de se assinar qualquer tratado, o germe para o segundo conflito mundial já existia: a guerra pela supremacia ideológica. E, hipocritamente, o país "derrotado", a Alemanha, sai do conflito com a sua estrutura económica intacta, o seu território inviolado, e cheia de ressentimento pelo tratado humilhante de Versalhes, pronta a crescer e armar-se para um novo conflito. A França, país "vencedor" sai com um terço do território arrasado e fragilizada economicamente.
E a verdade é que a face da Europa mudou a partir daqui. Até que ponto a História do continente europeu teria sido diferente se estes "anos decisivos", como tão bem lhes chamaste, tivessem sido moldados de uma outra forma?
ResponderEliminarComo sempre, o texto está excelente :)
Bjos
Fátima